quinta-feira, 12 de julho de 2012

Sobre o pai...

Há alguns dias vinha me perguntando por que ainda não escrevi algo sobre meu pai em especifico. Bem, como ainda não achei a resposta, vou começar a escrever agora.
Durante a primeira parte de minha infância, pude conviver bem próximo a ele, pois até os meus nove anos aproximadamente, meus pais ainda eram casados, como já relatei aqui mesmo numa postagem anterior.
Esperança

parte boa

Deste período tenho alguns flashes de memória de algumas coisas que passei e fiz com ele. A maior parte destas lembranças é boa, mas algumas nem tanto. As boas lembranças estão relacionadas a algum tipo de brincadeira. Por vezes eu e meu pai jogávamos bola. Eu invariavelmente era o goleiro e ele o batedor de pênaltis.
Sempre gostei muito de pedalar e jogar bola, minhas duas brincadeiras preferidas, meu pai, no entanto, não era uma pessoa tão adepta assim a prática de exercícios físicos, por este motivo aliado a minha pouca habilidade em conquistar novas amizades, eu passava horas jogando bola sozinho e imaginando os meus lances num estádio lotado, coisas de piá.
Outra coisa que fazíamos era assistir a algum jogo de futebol pela televisão quando o Grêmio jogava, ou em algumas oportunidades no estádio quando o jogo era do Juventude. Fomos poucas vezes ao campo juntos, mas não me importava em ir, porque não era este meu passatempo preferido.
Pela televisão vimos muitos Grenais, também acompanhamos a final do mundial de 1984 de madrugada na casa de um vizinho. Além do título do Grêmio, outro fato marcante foi o roubo de um Corcel II de um dos torcedores que estava lá, ocorrido bem na hora do segundo gol do Renato.
Coisas assim.

A parte não tão boa

Há algum tempo atrás meu irmão confessou sentir saudades de quando jogava bola com o pai, e eu comecei a pensar e ao verificar minhas lembranças, constatei que na verdade quem brincava com ele era eu, e não o pai.
Não gostaria de dizer com estas palavras, mas não achei outras, meu pai foi um pouco ausente em nossa infância. Mesmo no período em que estávamos os quatro juntos...
Brincadeiras sempre são bem-vindas para uma criança, mas por outro lado, não tenho recordação de nenhuma tarefa de aula que eu tenha feito com ele, nenhuma participação dele nos episódios da escola, ou em outra atividade.
O porquê não tenho como relatar. Não sinto ter este direito, afinal, não preciso e nem é meu objetivo expor meu pai. Não quero isso.
Preciso deixar claro que nunca fui maltratado ou humilhado pelo meu pai, longe disso.

        Marcas do passado

Algumas situações no convívio com meu pai deixaram marcas indeléveis na minha vida. Disto não posso fugir. Hoje estas cicatrizes não doem e aprendi que elas me trouxeram para onde Deus planejou. Mas na época não foi bem assim.
Não que eu tenha pesadelos, pense nisso todos os dias ou o reflexo das tais marcas se vejam em minha vida hoje. Depois de tantos anos e de atitudes positivas frente a eventos do passado, pude superar as muitas dificuldades que se apresentaram.
Aqui cabe um parêntese, devo muito a minha amada esposa, pela sua sabedoria e paciência. Sem ela provavelmente eu ainda estaria arrastando o passado, e culpando certas circunstâncias por alguns acontecimentos do presente. Quem sabe também eu estaria somente olhando para trás, e sofrendo pela segunda vez, ao invés de encarar a vida de frente e superar os obstáculos. Muito obrigado meu grande e eterno amor.
Retomando então, dentre todas as coisas que mais me machucaram, posso separar algumas, e repito falo delas agora como alguém que enxerga o local de um antigo ferimento, e ali uma cicatriz que não dói mais, porém permanece como um marco de que em algum dia, algo te feriu.
Eu poderia não falar sobre este assunto, mas resolvi que deixar de me referir a isto, não vai alterar em nada o que já passou. O meu maior desejo é que de alguma forma esta simples abordagem, possa sim alterar o nosso relacionamento hoje, e no futuro.
Talvez a mais antiga seja a lembrança que tenho de meu pai entrando em casa, quando meu irmão era recém-nascido, dizendo para minha mãe que havia sido demitido.
Não sei como, pois não sabia o que era ser demitido, mas a expressão, a forma como meu pai falou, não esqueço. Passei pela mesma situação por duas oportunidades, mas pude lidar melhor com isso, tanto que minha filha comemorou o fato de eu poder estar em casa com ela, e minha esposa me deu o apoio necessário para minha recolocação, que demorou mais do que imaginaríamos, conto isso em outra oportunidade.
Quando eu disse uma vez que gostaria de tocar piano, já que via meu pai tocando gaita muitas vezes, ouvi uma frase mais ou menos assim: “teus dedos são muito curtos, você não vai conseguir”. Pronto, não consegui mesmo. Não consegui nem tentar. Hoje penso que deveria ter insistido, mas não tive apoio ou força suficiente para ir sem apoio.
Começamos a ganhar mesada na copa de 1986, quando meus tios se reuniram lá em casa para assistir a um dos jogos do Brasil na primeira fase, e apostaram num resultado que ninguém acertou. No final do jogo aquele dinheiro foi repartido entre nós, um dos tios disse para o valor ficar como mesada. Não sei dizer quanto era essa quantia, mas podíamos comprar um Chokito e uma caixinha de balas Supra Sumo, sobrando um troco.
Isso não era problema, o ruim era nem sempre receber a mesada prometida, ou receber parte dela, e saber lidar com estas pequenas frustações.
Não posso deixar de citar as marcas boas que também trago até hoje. Aprendi muito com meu pai sobre a honestidade. Sempre fui influenciado a não tentar trapacear, enganar, ou levar alguma vantagem sobre alguém de forma desonesta.
Acabo de me recordar também de que aprendi que nem sempre se ganha. Meu pai não  se lembrará disso, mas um dia em Curumim, um parque de diversões se instalou lá e uma das brincadeiras era uma espécie de autorama (corrida de carrinhos de controle remoto numa pista). Eu perdi. E chorei. E meu pai voltou lá dentro enquanto eu esperava do lado de fora, e quando ele retornou me disse assim: "eu vi errado, foi você quem ganhou". Com isso hoje, posso dizer, que aprendi quantos sacrifícios um pai faz por um filho. Foi a melhor saída? No momento sim. Hoje vejo e posso ensinar a minha filha que nem sempre se ganha, mas isso só foi possível pelo exemplo de meu pai, naquela situação difícil de lidar.
Aprendi com ele também a não se vangloriar, não se gabar, não se achar mais do que os outros. Ele também não lembrará, mas enquanto estiver lendo estas linhas, quero que ele saiba que eu lembro muito bem.
Estávamos no centro de Caxias, e enquanto ele resolvia alguma coisa, eu vi um mendigo andando com dificuldade, e quis rir e mostrar para meu pai tirando sarro, e rapidamente ele me repreendeu  dizendo que isso não se faz para ninguém, pois não somos melhores que os outros.
Engraçado como depois que conversei com meu pai por e-mail, estas lembranças começaram a vir rapidamente em minha mente, tanto que estou escrevendo e vou publicar como sair, sem conferir. 
Aprendi também a dar valor para tudo. Nada foi fácil financeiramente em nossas vidas. Ambos, meu pai e minha mãe trabalhavam fora para buscar o sustento para nós. Um dia ganhei um Kichute, na verdade um tênis simples, mas para mim era algo muito especial.

        Efeitos

Minha mãe nunca se reclamou como já afirmei antes, mas deixava nas entrelinhas a causa que mais a deixou triste com o casamento podendo ser traduzida como a falta de atenção e carinho. Isso refletiu em parte também nos filhos.
Não carrego mágoas, rancor ou ódio de meu pai. Penso que apesar de tudo, hoje, consigo extrair grandes lições com tudo o que me sobreveio. Na forma de abordar as questões familiares tenho muito cuidado para evitar certos deslizes, que percebi ocorrerem no casamento de meus pais.
Em determinadas ocasiões nas quais estou deixando algo a desejar, minha esposa me orienta a como corrigi-las. A minha maneira de cuidar da minha filha, e o meu relacionamento com ela, posso afirmar é muito mais profundo e faço questão de que seja assim. Conseguimos criar um vínculo de amizade. Algo que gostaria muito de que pudesse ter tido com meu pai.
Avalio muitas situações, e vejo alguns exageros de minha parte, sobram algumas arestas ainda, mas estou no caminho para apará-las.
Finalizando digo que em tudo dou graças a Deus. Não condeno ou julgo as atitudes de meu pai, somente procuro olhar para algumas delas e agir de forma diferente, para que erros perfeitamente evitáveis ocorram.
Frente a tantos problemas, dificuldades, enfermidades e falta de exemplos digo que a principal diferença entre a família em que fui criado e a minha atual é a presença de Jesus em primeiro lugar.

Reconhecimento

Quero fazer no fim desta postagem algo que eu deveria ter feito há muito tempo. E vou fazer pessoalmente se Deus me der a oportunidade.
Minha mãe não está mais aqui, mas para ela não sinto que fiquei devendo alguma coisa. Como filho errei e acertei, dei trabalho, incomodei, tirei o sono, mas quando pude, acredito que retribui, tentando ser o melhor filho que eu poderia ser.
Com relação ao meu pai, sinto que devo a ele sim. Devo meus agradecimentos. Muito obrigado por tudo. Quem não erra? Erramos todos os dias. Só sei dizer que acertamos muito mais. Meu pai acertou sim muito mais comigo do que errou. Nunca o culpei, nem o culpo. Ele não se separou de mim, separou-se de minha mãe. Eu sim, errei. Na minha cabeça de criança, me afastei dele, não sei dizer o motivo.
Enfim, pai, te agradeço novamente. Obrigado por tudo que fizeste em minha vida. Meu espírito sim se desarmou.
Penso que hoje posso dizer, Te Amo, publicamente.
Não seria justo eu deixar de fazer isto, de reconhecer que não teria chego até aqui e ser a pessoa que sou, sem o teu exemplo. Acredito que esta postagem esteja próxima do eu que sinto.
Deus continue te abençoando, pai. Obrigado de coração.

Até o próximo post, no qual procurarei relatar a nossa passagem por Florianópolis.

4 comentários:

Joelma disse...

Mazzochi seu blog esta mto bom...parabéns!

Jessica disse...

muitooooo booom tio seu blog .. parabens !

Mateus Emilio Mazzochi disse...

Obrigado Jô. Um grande abraço.

Mateus Emilio Mazzochi disse...

Oi Jéssica, muito obrigado.

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