quinta-feira, 5 de julho de 2012

Capítulo Especial: Vô Emilio.

Saudades
Andando pela colônia. Saudades...
Olá. No fim da ultima postagem, que pode ser lida aqui, relatei a parte boa de minha infância.
Antes de passar para algo mais triste, vou tratar nesta postagem
de uma pessoa que me acompanhou de perto, muito perto mesmo, até a sua partida. Meu avô Emilio.
Descansando
                   Descansando um pouco...
Desde que eu era muito pequeno, estive muito ligado a ele, na verdade como se diz por ai, fui "separado" como o filho homem que ele não teve.
Na verdade, a maioria das boas lembranças que tenho deste período da minha vida, estão ligadas direta ou indiretamente ao meu avô. Muita e muitas vezes, por eu ser um metido, esteve com ele na oficina que mantinha em casa, aprendendo e imaginando que estaria realizando algo. Eram momentos muito divertidos.
Convivi com ele pelos primeiros oito anos da minha vida, quando enfim Deus resolveu recolhe-lo em 1985. Não posso julgar o propósito Dele com isso, mas, esta foi a primeira grande perda de minha vida, uma das maiores, e para um garoto daquela idade, não poderia imaginar dor maior.
Na época lembro bem que eu não conseguia acreditar que aquele homão pudesse ter assim de uma hora para outra ter deixado de existir, e por tanto não queria e nem conseguia chorar. O pior momento foi quando percebi que de nunca mais poderia falar, brincar ou ouvir ele me chamando de Nêne.
Mas o meu propósito não é o de relembrar e sofrer novamente com o que ocorreu, mas retratar o quanto me fez bem a convivência com uma pessoa tão boa e tão mais experiente do que eu,

Curumim.

O nome parece estranho, mas existe no litoral do Rio Grande do Sul um balneário, uma praia, com este nome, e foi ali em Curumim, que eu e meu avô mais aprontamos as nossas.
Desde pequenininho, eu acompanhava meus avós para intermináveis veraneios em Curumim, que começavam mais ou menos em outubro e terminavam em março, ou algo assim.
As idas para lá, as viagens, eram impressionantes, não tenho ideia de como as coisas podem mudar tanto em tão pouco tempo. Naquela época, eu ia sem cinto andando por dentro do Opala, fazia xixi num pinico, ia tudo pela janela, no porta-malas ia um galão com 50 litros de gasolina, vai que não tem gasolina em Terra de Areia, a única praia que tinha posto, dizia meu avô. Essa gasolina foi a responsável pelo assassinato de uma Cuca (Cuque), que minha vó fez para o lanche da chegada, como Cuca de gasolina não é muito agradável, não me lembro de como foi feito na época, mas meu vô ouviu bastante por causa disso. Era assim.
Lá foi que entre tantas coisas que passei por uma experiência no mínimo interessante. Ao entrar na casa, fechada há muitos dias, o mato tomava conta do terreno do lado, passando por cima do muro. Quando eu com aproximadamente 03 anos na época, comecei a gritar “icho, icho”, mais do que depressa meu avô virou-se e com a mão mesmo deu um soco numa cobra que estava saindo por um dos furos do tijolo do muro, ao mesmo tempo em que me colocava para trás dele, para me proteger.
Após o susto, e de matar a cobra, fomos tranquilamente jogá-la num terreno baldio. Todo o dia passávamos por lá para ver os ossos da cobra. E meu vô todo contente contava para todo o mundo que tinha sido eu que o avisou do perigo.
Por lá também caminhávamos, conversávamos com os vizinhos, nem sempre íamos à praia mesmo, pois eu era pequeno e o clima não ajudava, afinal, não era temporada.
Aprendi um pouco com ele também a ser um pouquinho exagerado. Tá bom meio exagerado. Bom na verdade bastante exagerado.
Para sair da casa em Caxias, meu avô colocava tantas trancas nas portas, e tão antecipadamente, quase uma semana antes de sair, que quando perguntavam para ele: “onde está tal coisa”? Ele respondia: “está lá na garagem, mas já passei a tranca”, o que significava, esqueça não dá mais para pegar, não vale a pena abrir tudo novamente.
Era de tal ponto o exagero, que tudo que tinha que ser levado para praia, e põe tudo nisso, já estariam no Opalão, uns três dias antes, o que dificultava até um simples café da tarde, pois as xícaras, bule, colheres, açúcar, já estavam guardados, e novamente, não valeria a pena mexer em tudo novamente “só para tomar um café”.
Era tão divertido que, chegando à praia era tudo ao contrário. Abrir aquela casa e colocar as coisas para dentro não poderia ser feito num simples dia. Eram horas a fio puxando as coisas do carro, tirando trancas, ligando a bomba para tirar água do poço, abrindo janelas que também tinham suas trancas, varrendo, ligando as geladeiras, sim duas, pois o restante da família, cinco tias, os tios, primos além dos meus pais, logo chegariam, e tudo deveria estar funcionando. Isso sem contar quando tínhamos de retornar a Caxias para trazer o que ficou esquecido.

A Colônia.

Outro lugar interessante para onde eu e meu avô íamos era A Colônia.
Na verdade era um terreno, de tamanho médio-grande, que meus avós tinham nos limites de Caxias (na época, hoje tem um shopping lá).
Era legal por que era lá que meu vô guardava a motosserra, ou se não guardava, era ali que ele a ligava, eu ficava maravilhado com aquele barulho e a fumaceira, além de ver meu vô afiando a serra. Era simplesmente demais.
Lembro-me de ter acompanhado meu vô plantar uma Acácia Negra, e de muitas vezes ter ido lá verificar se ela tinha “pegado”, pois não bastava plantar, tinha que ir lá conferir, e eu junto.
Tudo o que meu vô colocava na terra, florescia.
Além do barracão, que aparece na primeira foto desta postagem, que era cheio de ferramentas e que eu não me lembre de ter entrado, pois era “perigoso pro Nêne”.

Os presentes.

Meu avô não se contentava em me dar presentes e mais presentes. Ele também os fazia para mim.
Ganhei um peão, um arco e flecha (que eu mal podia carregar, na verdade, de tão pesado), além de outros brinquedos que não me recordo, mas que “ajudei” meu vô fazer, tudo em madeira, na oficina do porão da casa.

O Porão.

Esse lugar foi e é até hoje vivo em minha memória.
Lá eu via meu avô “voar” na imaginação, concentrado, inventando uma ferramenta para realizar um trabalho, afiando outras, dando forma em madeira, colando, lixando, polindo, pintando... Enfim, eu e ele lá, era traquinagem na certa.
Muitas vezes me machuquei, outras atrapalhei, outras tantas vezes pensei que estava fazendo algo muito importante, mas no fim, só estava brincando.
Parece que ainda sinto o cheiro de madeira, óleo e tinta do lugar e o frio que fazia lá embaixo.
O lugar ainda existe, mas nem meu vô e nem minha vó, estão aqui.

Sementes

Enfim, não conseguiria descrever esse homem tão simples, que em português, só sabia escrever o próprio nome, mas com um coração tão lindo, que plantou a melhor semente que pode existir.
Plantou no meu coração a bondade, honestidade, gratidão, sinceridade, mansidão, alegria de viver, criatividade.
Espero passar isso para minha filha.
Penso que consigo hoje, viver tão bem com minha esposa, quanto meu vô viveu com minha vó.
Até a próxima.
Deus os abençoe.
 +Mateus Emilio Mazzochi  

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